Portugueses voltam a comprar casa e a pedir dinheiro ao banco

Há sete meses que a procura de casas não atingia valores tão altos, garantem as imobiliárias. Só nos primeiros quatro meses deste ano, os bancos emprestaram mais de 1615 milhões de euros em crédito à habitação. São mais 75% do que há um ano e quase três vezes mais do que em 2012. A incerteza sobre a economia, a crise da banca e os juros historicamente baixos – com empréstimos mais baratos e, por outro lado, um quase nulo retorno dos depósitos – estão a tornar a casa cada vez mais um investimento.

“O mercado imobiliário está a tornar-se uma alternativa ao setor financeiro”, refere Luís Lima, presidente da APEMIP, a associação que representa os mediadores imobiliários. “Depois da turbulência do mercado financeiro, há muitas pessoas a levantar depósitos para comprar casas. Umas para arrendamento e outras como simples investimento.”

Luís Menezes Leitão, da Associação Lisbonense de Proprietários, concorda: “As pessoas estão muito desconfiadas sobre os produtos financeiros e a casa é um investimento.” Além disso, o fraco funcionamento do mercado de arrendamento em Portugal, onde as opções são escassas e a preços elevados, também leva muita gente a optar pela compra. “Como os bancos voltaram a emprestar, a procura aumentou. A taxa de arrendamento em Portugal é de 14%, na Europa é 30%”, explica.

Em abril, o número de imóveis para venda voltou a subir pelo quarto mês consecutivo, e a procura registou um máximo de setembro de 2015. As vendas fechadas também aceleraram, especialmente em Lisboa, Porto e Algarve, de acordo com o Portuguese Housing Market Survey, realizado pela Confidencial Imobiliário e o Royal Institution of Chartered Surveyors (RICS) .

Se as condições se mantiverem, especialmente do lado dos bancos, a APEMIP estima que o mercado imobiliário cresça, neste ano, entre 35% e 40%, depois de um aumento de 27% em 2015. Os portugueses, assume Luís Lima em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, serão responsáveis por 80% deste crescimento e, mais do que uma primeira casa, fazem agora “compras para arrendamento e como simples investimento”, podendo até olhar para a reabilitação urbana para posterior venda.

Não são só os portugueses. “Para além de termos mais clientes de Portugal a apostar neste mercado como alternativa ao investimento em Bolsa e a produtos financeiros, também temos uma recuperação dos investimentos estrangeiros”, acentua o presidente da APEMIP.

De um lado, os chineses estão novamente a olhar para o mercado imobiliário português, “uma procura que pode ter um impacto forte no final do ano” com um maior escoamento dos procedimentos de atribuição dos vistos gold; do outro, “a segurança do mercado imobiliário” português está a atrair investidores de outros países, como França e o próprio Brasil.

É o caso de Marie e Yvon Meillare, dois franceses da região da Bretanha que compraram um apartamento, no início de agosto, no Seixal. “Em França, ouve-se cada vez mais que Portugal é uma terra de adoção para os franceses ao nível fiscal. Está na moda para os reformados franceses e, apesar de termos sido os primeiros do nosso círculo de amigos a comprar, já há outros a pensar no mesmo”, revelaram em entrevista à Lusa. Os franceses já são, inclusivamente, os maiores investidores estrangeiros em imobiliário nacional.

Luís Lima não tem dúvidas do que os motiva. “O que mais nos beneficia neste momento é a segurança. Não só estamos a atrair investidores de destinos tradicionais, como a França e Reino Unido, como também temos muitos brasileiros que consideram mais seguro investir em Portugal do que manter as suas poupanças no Brasil.”

A reativação do mercado de compra e venda, acrescenta a APEMIP, está já a suportar o setor de construção. O índice de produção na construção, publicado pelo INE, registou em abril uma diminuição homóloga de 4,5%, inferior à quebra de 5,1% de março. A evolução mais positiva, referiu o gabinete de estatísticas nacional, foi suportada pelo melhor comportamento dos setores da construção de edifícios e engenharia civil.

Depois do travão a fundo em investimentos imobiliários em países como Angola e Brasil, onde as empresas portuguesas tinham importantes projetos, Luís Lima admite que o bom momento do setor em Portugal seja agora o sustento de muitas empresas. “Não dá ainda para anular os efeitos negativos das saídas de Angola, Brasil e até da Venezuela, mas consegue atenuar e em muito.”

Se o mercado de compra e venda de casa se mantiver a subir, como os especialistas antecipam, haverá uma recuperação de preços. Na consulta que realizou a 150 empresas do setor, a RICS e a Confidencial Imobiliário admitem que a subida possa rondar os 3% neste ano.

Também o mercado de arrendamento deverá melhorar, refere este inquérito mensal, depois de a procura por potenciais arrendatários ter registado em abril um máximo de outubro de 2011 – o ano da crise.

Fonte: Diário de Notícias de Portugal